A missa
O que querem dizer as palavras estranhas que falamos na missa?
Amém, aleluia, kyrie: as palavras que repetimos sem saber
Seis palavras e respostas que atravessaram o hebraico e o grego sem serem traduzidas — e o que cada uma está dizendo.
A missa é rezada em português, mas algumas palavras nunca foram traduzidas. Atravessaram o hebraico, o grego e o latim e chegaram inteiras à nossa boca, e a gente as repete a vida toda sem que ninguém explique.
Uma delas, o hosana, tem texto próprio nesta seção. Estas são as outras.
Amém
Vem de uma raiz hebraica que significa firmeza, aquilo em que se pode apoiar o peso. Dizer amém não é dizer "acabou": é dizer eu me apoio nisso, é verdade, que assim seja.
Normalmente, quem diz amém está confirmando a palavra de outra pessoa — por isso a assembleia responde amém às orações do sacerdote, e não as reza junto. O amém no fim da oração eucarística é o mais importante da missa: é por ele que aquela oração deixa de ser do padre e passa a ser de todos.
Jesus fazia uma coisa incomum com essa palavra: começava frases com ela, em vez de terminar. Os Evangelhos guardaram esse jeito de falar, que costuma aparecer em português como "em verdade vos digo". Era afirmar por conta própria aquilo que os outros apenas confirmavam.
Aleluia
São duas palavras hebraicas grudadas: um verbo no imperativo plural, louvai, e uma forma abreviada do nome de Deus. Quer dizer, literalmente, louvai o Senhor — e carrega dentro dela o nome divino, o que explica o cuidado com que sempre foi tratada.
Aparece muitas vezes nos Salmos e, no Novo Testamento, nos cânticos do Apocalipse. Na missa, é a aclamação com que a assembleia se levanta para receber o Evangelho.
E some na Quaresma. Não é esquecimento: a Igreja a cala por quarenta dias justamente para que a falta se sinta, e para que a primeira aleluia da noite de Páscoa tenha o peso que tem.
Kyrie eleison
É grego, e é a lembrança mais conhecida de um tempo em que a Igreja de Roma celebrava em grego, antes de passar ao latim. Quando a língua mudou, essa súplica ficou como estava.
Quer dizer Senhor, tem piedade. Fora do cristianismo, a fórmula era usada para aclamar imperadores; os cristãos a tomaram e a dirigiram a outro Senhor.
E com o teu espírito
Esta é a mais mal entendida de todas. Muita gente a ouve como um "para você também", uma gentileza devolvida. Não é.
A expressão é bíblica: aparece no fecho de várias cartas de Paulo (cf. 2Tm 4,22; Gl 6,18; Fm 25). E o "espírito" a que ela se refere não é o humor do padre naquele dia — a tradição entende que é o dom recebido na ordenação, aquilo que o habilita a estar ali fazendo o que faz.
Quer dizer que a assembleia não está sendo educada: está reconhecendo o ministério de quem preside, e pedindo que o dom nele atue.
Santo, Santo, Santo
A repetição três vezes vem de uma visão do profeta Isaías, que ouviu os anjos dizerem isso diante do trono de Deus (cf. Is 6,3).
E há uma razão de língua por trás: o hebraico não tem superlativo como o nosso. Para dizer que algo é o máximo de alguma coisa, repete-se a palavra. Dizer santo três vezes é o modo hebraico de dizer santíssimo, santo como ninguém.
A tradição cristã leu depois nessa tríplice repetição também um sinal da Trindade. É leitura posterior, e vale conhecê-la sabendo que é isso: o sentido original é o superlativo.
Cordeiro de Deus
É o que João Batista disse ao ver Jesus se aproximar (cf. Jo 1,29). Para quem ouviu, a imagem carregava duas memórias ao mesmo tempo.
A primeira é o cordeiro da Páscoa, morto no Egito para que o povo fosse poupado e pudesse partir (cf. Ex 12). A segunda é a figura do servo sofredor de Isaías, levado como cordeiro ao matadouro sem abrir a boca (cf. Is 53,7).
Chamar alguém de cordeiro de Deus, portanto, não era ternura: era dizer que ali estava quem seria entregue para que os outros fossem libertados.
Senhor, eu não sou digno
As palavras que a assembleia diz antes de comungar não são uma fórmula inventada pela liturgia. São de um oficial romano do Evangelho, que pediu a cura de um criado e disse a Jesus que não merecia recebê-lo em casa — bastava uma palavra (cf. Mt 8,8; Lc 7,6-7).
Jesus respondeu admirando a fé daquele estrangeiro, que nem do povo de Israel era.
Quer dizer que, no momento mais solene da missa, a Igreja põe na boca de todos a frase de alguém que estava de fora, e que sabia disso.