A Igreja na história
O que foram as Cruzadas, e como a Igreja as vê hoje?
As Cruzadas
Dois séculos de expedições militares convocadas pelos papas — com motivos que a época entendia e crimes que a Igreja já pediu perdão.
Este é um assunto em que quase tudo o que se ouve está exagerado — para os dois lados. Quem acusa costuma descrever uma agressão gratuita contra povos pacíficos; quem defende costuma descrever uma guerra limpa de legítima defesa. Nenhuma das duas descrições resiste aos documentos.
O que foram
Expedições militares convocadas pelos papas entre 1095 e o fim do século XIII, com o objetivo declarado de recuperar Jerusalém e garantir o acesso dos peregrinos aos lugares santos. Costuma-se contar oito principais, além de várias menores.
A primeira foi pregada pelo papa Urbano II no Concílio de Clermont, em 1095. Tomou Jerusalém em 1099. A última posição cristã no Oriente, Acre, caiu em 1291.
O que levou a elas
Três coisas, que raramente são contadas juntas.
A peregrinação a Jerusalém era um costume cristão de séculos. A cidade estava sob domínio muçulmano desde 638, e durante a maior parte desse tempo os peregrinos passavam. O que mudou foi o avanço dos turcos seljúcidas no século XI, que tornou as estradas perigosas.
O imperador de Constantinopla, cristão, pediu socorro militar ao Ocidente depois de perder boa parte da Ásia Menor. O pedido é documentado, e foi o gatilho imediato da convocação de Urbano II.
E havia o problema interno da Europa: uma nobreza guerreira sem ocupação, que passava o tempo em guerras privadas. Canalizar essa violência para longe era um cálculo consciente de quem convocou.
A parte que não se pode amenizar
A tomada de Jerusalém em 1099 terminou num massacre de habitantes — muçulmanos e judeus, incluindo quem não combatia. Os próprios cronistas cristãos da época descreveram a cena com detalhes que hoje se lê com horror, e alguns a celebraram.
Antes mesmo da partida, bandos que seguiam à frente do exército atacaram comunidades judaicas na Renânia e mataram um número grande de pessoas. Bispos locais tentaram protegê-las, alguns abrigando judeus nos próprios palácios, e em vários casos não conseguiram.
A Quarta Cruzada, em 1204, nunca chegou ao seu destino: desviou-se e saqueou Constantinopla, cidade cristã. O papa Inocêncio III a havia proibido de atacar cristãos, e condenou o saque depois de consumado — o que não desfez nada. Aquela ferida entre o Ocidente e o Oriente cristão dura até hoje.
O que a Igreja disse sobre isso
Em 2001, em Atenas, João Paulo II pediu perdão aos ortodoxos pelos pecados dos católicos contra eles, mencionando expressamente o saque de Constantinopla de 1204. Em 2004 repetiu o gesto ao patriarca Bartolomeu.
No Ano Santo de 2000, no chamado Dia do Perdão, a Igreja pediu publicamente perdão pelos pecados cometidos a serviço da verdade — a fórmula abrange o uso da violência em nome da fé.
E o Concílio Vaticano II já havia estabelecido o princípio que torna impossível repetir aquilo: ninguém pode ser forçado em matéria religiosa, e a verdade só se impõe pela força da própria verdade (declaração Dignitatis humanae, n. 1-2).
Onde os números populares erram
Para baixo e para cima.
Não houve "milhões de mortos": os exércitos cruzados eram pequenos para os padrões modernos, e a maior parte deles morria de fome e doença no caminho, não em combate. Os números astronômicos que circulam não vêm de fonte nenhuma.
Mas também não foi uma guerra de fronteira sem vítimas civis. Os massacres aconteceram, estão documentados por quem os praticou, e são crimes segundo a própria moral cristã que os cruzados professavam.
Três mal-entendidos frequentes
A indulgência não era licença para pecar. O cruzado recebia a remissão da penitência temporal devida por pecados já confessados e perdoados. Não era permissão para matar, nem garantia de salvação — e foi mal compreendida já na época.
Não foi um negócio. Equipar-se para uma cruzada arruinava famílias inteiras: vendiam-se terras para pagar cavalos, armas e a viagem. Alguns enriqueceram; a maioria voltou mais pobre, quando voltou.
A "Cruzada das Crianças" de 1212, do jeito que se conta, não aconteceu. A história de milhares de crianças marchando para o mar é sobretudo lenda formada séculos depois.
Como ler isso hoje
A tentação é julgar o século XI com a cabeça do século XXI, e a tentação oposta é usar "era outra época" para não julgar nada.
O caminho católico não é nenhum dos dois. É reconhecer que aquelas pessoas agiam dentro de um mundo em que a guerra santa parecia evidente a cristãos e muçulmanos igualmente — e, ao mesmo tempo, dizer que matar em nome de Cristo contradiz o Evangelho em qualquer século, e que a Igreja levou tempo demais para dizer isso com todas as letras.