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A Igreja na história

O que foi a Inquisição, e o que a Igreja reconhece sobre ela?

A Inquisição

Não foi uma só, os números reais são muito menores do que se diz — e ainda assim foi um erro que a Igreja hoje condena por princípio.

Duas afirmações opostas circulam sobre a Inquisição, e as duas são falsas: a de que matou milhões, e a de que foi um tribunal brando de que se fala mal por preconceito.

Não foi uma só

Três instituições diferentes recebem esse nome, e confundi-las é a origem de metade da confusão.

A Inquisição medieval, a partir de 1231, criada para lidar com movimentos considerados heréticos no sul da França e no norte da Itália.

A Inquisição espanhola, de 1478. Esta é a mais famosa e a mais mal compreendida: foi pedida pelos reis de Castela e Aragão, autorizada pelo papa, e controlada pela Coroa — era o rei quem nomeava o inquisidor-geral. Vários papas protestaram contra os excessos dela e não foram atendidos. Durou até 1834.

A Inquisição romana, de 1542, criada no contexto da Reforma. É a que julgou Galileu. O órgão que dela descende existe até hoje com outro nome e outra função: é o dicastério que cuida da doutrina, e não julga mais ninguém criminalmente.

Quem era julgado

Batizados. A Inquisição não tinha competência sobre judeus ou muçulmanos como tais — julgava quem, tendo recebido o batismo, era acusado de negar a fé que professara. Na Espanha, a maioria dos processos envolvia convertidos suspeitos de continuar praticando o judaísmo ou o islã em segredo.

Isso não torna a coisa menos grave. Torna-a outra: era um tribunal que punia a consciência, não um tribunal de perseguição religiosa indiscriminada.

Os números

Os arquivos da Inquisição espanhola se conservaram quase completos, com os processos um a um. Historiadores que trabalharam diretamente sobre eles chegaram a números muito abaixo dos que circulam: alguns milhares de execuções em mais de três séculos, num universo de dezenas de milhares de processos. A maioria das sentenças era de penitência, multa ou prisão.

Em 1998 a Santa Sé abriu esses arquivos a um simpósio internacional de historiadores, católicos e não católicos, precisamente para que as contas fossem feitas por quem não tinha lado. Foi o próprio João Paulo II quem pediu o estudo, dizendo que a Igreja não pode pedir perdão pelo que não conhece com exatidão.

E a caça às bruxas?

Aqui a correção vai contra o senso comum. A grande caça às bruxas europeia foi sobretudo um fenômeno do norte do continente, conduzido por tribunais civis, e ocorreu principalmente nos séculos XVI e XVII — depois da Idade Média, não durante.

Onde a Inquisição era forte, houve menos execuções por bruxaria, não mais: os inquisidores exigiam prova e desconfiavam de confissões obtidas por pânico coletivo. Na Espanha, um inquisidor enviado a investigar um surto de acusações concluiu que não havia caso nenhum, e a partir daí o tribunal passou a tratar denúncias de bruxaria com extrema cautela.

O que não tem defesa

A tortura foi autorizada e usada. Havia regras que a limitavam, e ela era usada em proporção menor do que se imagina — nada disso importa para a questão de fundo.

O Catecismo da Igreja Católica trata do assunto sem rodeios: reconhece que, em tempos passados, práticas cruéis foram de uso comum em governos legítimos, e que os próprios pastores da Igreja adotaram em seus tribunais as prescrições do direito romano sobre a tortura. E acrescenta que, nos tempos recentes, tornou-se evidente que essas práticas eram cruéis e desnecessárias, e que a Igreja se empenha por sua abolição (n. 2298).

É raro um texto oficial dizer uma coisa dessas sobre a própria instituição. Vale ler o número inteiro.

O princípio que mudou

O que encerra a questão não é a aritmética das execuções — é a doutrina.

O Concílio Vaticano II declarou que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa, que ninguém pode ser coagido a agir contra a própria consciência nem impedido de agir segundo ela, e que a verdade não se impõe senão pela força da própria verdade (Dignitatis humanae, n. 1-3).

Isso torna a Inquisição impossível em qualquer forma. Não porque exagerou na dose: porque o princípio estava errado.

O pedido de perdão

No Dia do Perdão, em março de 2000, a Igreja pediu perdão pelos pecados cometidos a serviço da verdade — e a intercessão dizia expressamente respeito ao recurso à violência e à intolerância contra os que pensavam diferente.

Sobre Galileu, julgado pela Inquisição romana em 1633, João Paulo II encerrou em 1992 uma comissão de estudo reconhecendo publicamente o erro dos juízes.

Por que isto importa para quem reza

Porque a resposta honesta é mais forte que a defesa. Quem diz "foram só alguns milhares" está dando a impressão de negociar um preço aceitável. Quem diz "a Igreja é santa e não erra" está negando o que a própria Igreja já declarou.

A Igreja é santa por Aquele que a fundou, e é feita de pecadores — inclusive os que a governaram. As duas coisas são ensinadas ao mesmo tempo, e é essa a única resposta que não precisa esconder nenhum documento.

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