Dúvidas comuns
Por que os católicos têm imagens, se a Bíblia proíbe?
Imagens, santos e outras acusações comuns
A resposta está no próprio livro que traz a proibição — e passa por um concílio do ano 787.
A acusação é antiga e merece resposta serena, porque quem a faz costuma estar lendo a Bíblia com seriedade.
A objeção
O Êxodo diz para não fazer imagem esculpida de nada do que existe no céu, na terra ou nas águas, nem se prostrar diante delas (cf. Ex 20,4-5). E a igreja católica está cheia de estátuas, diante das quais as pessoas se ajoelham.
A resposta está no mesmo livro
Poucos capítulos depois da proibição, o mesmo Deus manda Moisés fazer dois querubins de ouro batido sobre a Arca da Aliança — o objeto mais sagrado de Israel (cf. Ex 25,18-20).
Manda também fazer uma serpente de bronze e levantá-la num poste, para que os mordidos a olhassem e vivessem (cf. Nm 21,8-9).
E o Templo de Salomão, construído por ordem divina, tinha querubins esculpidos, palmeiras e flores nas paredes, e touros de bronze sustentando a bacia (cf. 1Rs 6,23-29; 7,25).
Ou o texto se contradiz, ou a proibição não é sobre fazer imagens. É sobre adorá-las: tomar a coisa fabricada por deus. O versículo seguinte à proibição diz exatamente isso, e o restante da Bíblia confirma — quando a serpente de bronze passou a receber incenso como se fosse divina, o rei Ezequias a destruiu (cf. 2Rs 18,4). O objeto mandado por Deus virou ídolo quando mudou o que se fazia diante dele.
O que a Encarnação mudou
Há um argumento cristão que vai além.
A proibição do Antigo Testamento se explica porque ninguém tinha visto Deus: qualquer imagem dele seria invenção humana, e por isso mentira. Mas em Jesus Cristo, Deus se fez visível. Ele é a imagem do Deus invisível (cf. Cl 1,15), e o Verbo se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,14).
Representar Cristo, portanto, não é fabricar um deus à nossa medida: é afirmar que ele teve mesmo rosto, mãos e voz. Recusar toda imagem sua acaba tocando na própria Encarnação — foi esse o argumento decisivo quando a questão se decidiu.
O concílio que resolveu a questão
No século VIII o Império Bizantino se dividiu numa guerra sobre isso, com imagens destruídas e monges perseguidos. O II Concílio de Niceia, em 787, definiu a distinção que vale até hoje:
- à imagem se presta veneração, que é honra;
- a Deus se presta adoração, que não se dá a mais ninguém;
- e a honra prestada à imagem passa àquele que ela representa — quem beija um retrato não está beijando papel.
O Catecismo retoma isso nos números 2129 a 2132, e é bom saber que essa é doutrina de concílio, não costume popular tolerado.
E o joelho no chão?
Ajoelhar-se é gesto de reverência, e a Bíblia o registra diante de pessoas sem que ninguém ali esteja adorando (cf. Gn 33,3; 1Sm 24,9). O gesto não define o ato: o que define é a quem, e para quê.
Quem reza diante de uma imagem de Nossa Senhora não pede nada ao gesso. Pede a Maria que reze por ele — e a imagem está ali pela mesma razão que a foto de quem amamos está na carteira.
"Vocês tiraram um mandamento"
Esta acusação tem explicação simples, e quase ninguém a conhece.
O texto bíblico não vem numerado. Dividi-lo em dez foi decisão posterior, e há mais de uma divisão antiga. A tradição católica — que neste ponto é a mesma de Lutero — junta a proibição das imagens ao primeiro mandamento, porque entende que é o mesmo assunto, e depois separa em dois o último, distinguindo desejar a mulher do próximo de cobiçar os bens dele. Outras tradições cortam nos dois lugares opostos.
O total é dez dos dois jeitos, e o texto da Bíblia é o mesmo. Nenhum católico tem uma Bíblia sem aqueles versículos: basta abrir Ex 20 e lê-los.
Outras quatro, em resposta curta
"Não chameis ninguém de pai" (cf. Mt 23,9). No mesmo sentido literal, Jesus proibiria chamar de pai quem nos gerou — e o próprio Paulo se diz pai dos coríntios, porque os gerou no Evangelho (cf. 1Cor 4,15). O que Jesus condena é a vaidade dos títulos, não a palavra.
Confessar a um homem. Jesus ressuscitado soprou sobre os apóstolos e disse que aqueles a quem perdoassem os pecados seriam perdoados (cf. Jo 20,22-23). Quem perdoa é Deus; o sacerdote é por onde esse perdão chega, e ouvi-lo dito em voz alta faz parte do sacramento (Catecismo, n. 1461-1467).
"A Igreja escondeu a Bíblia do povo." Foram monges que a copiaram à mão durante mil anos, antes da imprensa, e houve traduções para línguas vernáculas muito antes do século XVI. Houve, sim, restrições a traduções determinadas em contextos de disputa — o que é diferente de proibir a Escritura. Hoje o Concílio Vaticano II pede acesso amplo à Escritura a todos os fiéis (Dei Verbum, n. 22).
A venda de indulgências. Essa crítica é verdadeira, e a Igreja concorda com ela: era abuso, foi denunciado por católicos antes mesmo da Reforma, e o Concílio de Trento proibiu expressamente qualquer cobrança por indulgências. Uma indulgência jamais perdoou pecado nem se comprou legitimamente — quem vendia estava cometendo um delito.
O critério para todas
Quando a crítica é falsa, mostra-se o texto. Quando é verdadeira — e algumas são —, reconhece-se.
Uma defesa que precisa negar fatos não defende coisa nenhuma: só ensina o outro a desconfiar de tudo o mais que dissermos.