Alva

A Bíblia

A quem foram escritas as cartas que lemos na missa?

Quem eram os coríntios, os romanos, os gálatas

Eram gente de carne e osso, em cidades que existiam no mapa, com problemas que se reconhecem hoje.

Na missa se anuncia "carta de São Paulo aos Coríntios" e ninguém explica quem eram os coríntios. Eram gente de uma cidade específica, com problemas específicos — e é sabendo quais que a leitura muda de peso.

Quase todas as cartas foram escritas para resolver alguma coisa. Não são tratados: são correspondência, muitas vezes urgente, às vezes irritada.

Romanos

Roma era a capital do império, e a comunidade cristã de lá não tinha sido fundada por Paulo — ele nunca havia estado na cidade quando escreveu, por volta do ano 57. Escreveu antecipando a visita, a uma comunidade que não o conhecia.

Talvez por isso seja a mais organizada de todas as suas cartas: em vez de apagar um incêndio, ele expõe com calma o essencial do que anuncia. Havia ali cristãos vindos do judaísmo e cristãos vindos do paganismo, e a convivência entre os dois grupos é uma das preocupações do texto.

Coríntios

Corinto era uma cidade portuária rica, grega, com dois portos e gente de todo lugar passando. Tinha fama de terra sem freios — a ponto de existir, no grego da época, um verbo derivado do nome da cidade para dizer viver dissolutamente.

A comunidade foi fundada por Paulo e lhe deu mais trabalho que qualquer outra: dividiu-se em facções, discutia se era lícito comer carne oferecida aos ídolos, fazia da ceia do Senhor um jantar onde os ricos comiam primeiro, e disputava quem tinha os dons mais espetaculares do Espírito.

É respondendo a isso que Paulo escreve o elogio da caridade, que se lê em tantos casamentos (cf. 1Cor 13). Ele não o escreveu para noivos: escreveu para uma comunidade brigada.

Gálatas

A Galácia não era uma cidade: era uma região no interior da Ásia Menor, na atual Turquia central, povoada por descendentes de celtas que tinham migrado para lá — o nome vem da mesma raiz de "gauleses".

A carta é a mais áspera que Paulo escreveu. Depois que ele partiu, chegaram pregadores dizendo aos convertidos vindos do paganismo que era preciso, além da fé, adotar a circuncisão e a lei de Moisés. Paulo entende que ali se decide se o Evangelho é para todos ou só para alguns, e não mede as palavras.

Efésios

Éfeso era uma das maiores cidades do mundo antigo, na costa da Ásia Menor, célebre pelo templo de Ártemis, uma das sete maravilhas. Paulo viveu ali cerca de três anos, mais tempo do que em qualquer outro lugar.

A carta é serena, sem conflito à vista, e fala da Igreja como corpo de que Cristo é a cabeça. Nos manuscritos mais antigos falta a menção a Éfeso no endereço, o que leva muitos estudiosos a pensar que era uma carta circular, para várias comunidades da região.

Filipenses

Filipos era colônia romana na Macedônia e foi a primeira comunidade cristã fundada por Paulo em solo europeu (cf. At 16,11-15). Foi também a única de quem ele aceitou ajuda em dinheiro.

A carta é a mais afetuosa de todas, escrita da prisão, e agradece uma remessa que eles lhe enviaram. Guarda um hino antiquíssimo, anterior ao próprio Paulo, sobre Cristo que se esvaziou de si mesmo e se fez servo (cf. Fl 2,6-11).

Colossenses

Colossos era uma cidade pequena da Ásia Menor, já em decadência. Paulo não a fundou nem a conhecia: quem levou o Evangelho para lá foi Epafras, colaborador dele.

A carta responde a especulações que circulavam ali sobre potências celestes e intermediários entre Deus e os homens, e insiste que em Cristo está tudo o que é preciso.

Tessalonicenses

Tessalônica era a capital da província da Macedônia, cidade portuária e movimentada. A primeira carta aos tessalonicenses é provavelmente o escrito mais antigo de todo o Novo Testamento, por volta do ano 50 — anterior aos Evangelhos.

O assunto é a volta do Senhor. Alguns tinham entendido que ela seria imediata e haviam largado o trabalho para esperar; Paulo responde que ninguém sabe o dia, e manda cada um voltar para o seu ofício.

Timóteo, Tito e Filêmon: pessoas, não comunidades

Três cartas não foram escritas a igrejas, e sim a indivíduos.

Timóteo era um jovem colaborador, filho de pai grego e mãe judia, que Paulo deixou encarregado da comunidade de Éfeso. Tito era outro colaborador, vindo do paganismo, deixado em Creta. As cartas aos dois tratam de como escolher responsáveis e conduzir uma comunidade.

Filêmon era um cristão abastado, e a carta a ele é a mais curta de Paulo — cabe numa página. Onésimo, escravo de Filêmon, havia fugido e encontrado Paulo. Paulo o manda de volta com um bilhete pedindo que seja recebido não mais como escravo, mas como irmão amado.

Hebreus e as cartas católicas

Hebreus não tem forma de carta: é mais um sermão, de grego cuidado, dirigido a cristãos vindos do judaísmo tentados a voltar atrás. Não traz assinatura, e a Igreja nunca definiu quem a escreveu.

As sete últimas — Tiago, duas de Pedro, três de João e Judas — são chamadas cartas católicas. "Católica" aqui quer dizer universal: não foram endereçadas a uma comunidade, mas à Igreja em geral.

Por que isso muda a leitura

Saber que Corinto era um porto agitado e que a comunidade vivia brigada faz o elogio da caridade soar diferente. Saber que os tessalonicenses tinham parado de trabalhar esperando o fim do mundo explica por que Paulo fala de ganhar o pão.

A Igreja recomenda justamente isso: para entender o que o autor sagrado quis dizer, é preciso atender às condições de seu tempo e de sua cultura (Catecismo, n. 109-110).

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